terça-feira, 4 de agosto de 2009

O Vazio, o Ego e o Samurai.

“Meditando centrado no vazio e no não vazio, livre de pensamentos e sem movimento, o sábio fica firme e estável, profundo como um poço d’água” 50:148.
Kaulajnana Nirnaya, 84


A existência terrena é basicamente uma interação consigo mesmo e com outras pessoas em diversas situações, na qual o objetivo do habitante do mundo por trás do mundo, o Mago, é desenvolver-se e tornar-se alguém melhor. É a transmutação do chumbo do Ego no ouro da Essência.

Entretanto, é fato que a interação com o mundo profano, em geral, nos mostra exatamente o nosso pior, seja levando uma fechada no trânsito, chegando atrasado por conta de um congestionamento, tomando uma bronca do chefe ou sendo injustiçado pelo mundo em geral.

Diante dessas circunstâncias vejamos algumas possibilidades.

Levado pelo instinto natural de proteção, o ego, ao receber o que acredita ser uma ofensa, um ataque direto a sua integridade, uma invasão a suas barreiras pessoais, ativa o que parece ser uma espécie de sistema imunológico, uma enorme quantidade de energia é liberada a partir desse momento então ele passa a responder por puro instinto, exteriorizando ou interiorizando essa energia.

Quando interiorizada, essa energia destrutiva pode gerar num curto prazo um mal estar psíquico ou até mesmo físico, uma série de pensamentos auto sabotadores e destrutivos gerando reações que vão exatamente na contramão do que é o objetivo da existência. Em geral a interiorização dessa energia torna o sujeito mais amargo ou desiludido, na maioria dos casos, sem força suficiente, coragem suficiente ou a fibra moral necessária para fazer o que é necessário, na melhor das hipóteses se tornará um reclamão, vítima suprema de tudo e todos, na pior um homem alquebrado e sem esperança, amargurado a ponto de gerar dentro de si a doença que lhe tomará a própria vida.

Quando exteriorizada essa energia destrutiva se manifesta sempre de maneira doentia e pérfida. Seja da maneira direta ou indireta.

Quando direta a resposta é imediata, o ego se vale das ferramentas que estiverem a sua volta para atacar, variando dentro da personalidade de cada ser humano e da natureza da ofensa, esse ataque pode ser algo como uma ofensa trocada, na melhor das hipóteses, algo como um gesto mal educado ou alguma palavra de baixo calão, e daí pra pior, vicioso como é o ego tende a apelar sempre, a medida que o nível, não da ofensa em si, mas de como ela reverberou no ser, quanto mais forte ela reverbera, mais baixo o ego desce, e dai em diante, encontramos todo o tipo de ofensa que envolva o que há de pior na humanidade, preconceitos, discriminação, sexismo, chegando até as raias de se usar de segredos que lhe foram confiados para revidar a ofensa, gerando um ciclo cada vez maior de raiva.

Infelizmente,não raro, a ofensa ao ego gera uma resposta física, mesmo sendo verbal, a ofensa pode vir a gerar uma manifestação no físico da vontade de destruir o que lhe feriu, o ego então energizado pela raiva e pela ignorância, parte em busca, não de uma reparação, mas do desejo puro e simples de demonstrar ao mundo que ele não é nada daquilo, que ele é, mas não quer que o mundo veja, ou que sendo ou não, não importa, o ego é supremo e não deve ser maculado.

Imbuído por essa vibração, a confrontação fisica é inevitável, um olhar desafiador pode virar uma facada, um esbarrão uma briga generalizada, e uma agressão física ser respondida com bala.

Quando exteriorizada de forma indireta, temos um caso muito claro do ego se trasnformando em senhor e não em servo, a partir do momento da ofensa, o ego passa a tomar conta, a pessoa se entrega ao desejo de que ele repare o mal que lhe foi feito, aqui então temos as grandes vinganças, as sabotagens, tudo o que é pérfido e mendaz.

Desnecessário dizer que em todos os casos acima, nada será resolvido, o ego ainda que destrua a fonte da ofensa original, se encontrará partido, pois por mais que tente se convencer de que a ordem foi reestabelecida, bastará que a memória volte ao momento da ofensa original para que os mesmos sentimentos se manifestem, só que agora sem a origem para ser atacada, passará então a direcionar essa energia aleatoriamente em tudo a sua volta.

É interessane notar que na maioria absoluta, e não em sua totalidade uma vez que toda generalização é burra, quanto maior a energia desprendida para ofender, revidar, ou agredir, mais fragil é o ego. Forte em seu domínio sobre o Eu, e debilitado como estrutura do ser, como uma estrutura que foi projetada para ser pequena, compacta e de uso restrito, e que no entanto é
erguida até as alturas e passa a ter as mais diversas aplicações, o ego inflado é instável, quanto maior, maior o risco de quebra ou danos a sua estrutura.

Qual então deve ser o caminho para tranformar um ego tão enorme e inútil quanto um castelo de cartas mal construído, em algo prático e útil como um deck de tarot ?

Preencher o espaço do ego com o Vazio.

O vazio é a ausência de ego, dos pensamentos mundanos, das coisas fúteis, das preocupações com o que você é, com o que você tem, com que você fez, deixou de fazer, fará, tem que fazer, com as pessoas a sua volta, com a vida delas, em geral com o mundo inteiro que provoca as reações que vimos acima.

O vazio é sereno, calmo, traquilo, desprovido de símbolos, signos e significados, está álem, ele é por si só.

Quando desenvolvido esse vazio, ele poderá ser preenchido pelo que acreditamos ser o necessario para a Transmutação do chumbo em ouro, coisas como compaixão, amor, benevolência.

Metaforicamente ao desenvolvermos o vazio em Malkuth, ele será preenchido por Tipheret, ao fazê-lo em Tipheret, será preenchido por Kether, e ao fazê-lo em Kether chegaremos a Ain Soph Aur e assim retornando as manifestações de existência negativa dentro da Árvore da Vida da Cabala.

Calma, isso é lição de casa para bastante tempo. E por bastante tempo eu quero dizer, não tente contar, aliás, não tente nem pensar sobre isso, é um loooongo tempo.

Vamos voltar a parte prática.

E não existe nada mais prático do que a Fisíca Newtoniana, basicamente dentro das leis de Newton, as relações entre forças exigem DOIS entes físicos, ou duas partes do mesmo ente, e isso é absolutamente vital para entendermos a aplicação prática do vazio. Entre mais, as leis Newtonianas descrevem que só se detecta uma força através de seus efeitos. Quando uma força é aplicada, esta produz trabalho e transfere ou remove energia do objeto sobre o qual atua, desde que o objeto se mova de forma paralela à força aplicada.

Deu pra entender a semelhança ?

E como trabalhar esse conceito dentro da nossa vida e nossas interações ?

Quando um não quer, dois não fazem.

Esse conceito simples é tão absloutamente profundo que é o cerne vital de toda essa idéia.

Lembre-se que enquanto não dominar a si mesmo, você pode ser ofendido a qualquer momento, lembrando sempre que essa ofensa pode ser externa ou interna, e essas idéias devem ser utilizadas na superação dessa ausência de domínio, quando se tornar senhor de si, você entenderá que nunca pode ser ofendido, a menos que você permita, porque o ofensor não é a sua essência, não é você de verdade, ele simplesmente gerou a força mas é você através dos seus processos mentais que torna aquilo ofensivo.

Voce ja viu algum boxeador socando o ar ? E treinando em um saco de pancadas ?

Existem treinamento físicos, os treinos livres, que não envolvem nenhum tipo de aparelho externo ao corpo humano, entretanto por experiência própria afirmo que é o pior tipo de treino em termos motivacionais, e aí esta a chave para destruir qualquer possibilidade de deixar o ego tomar o controle.

Quando se treina em um saco de pancada, ele é pesado, recebe os golpes e fica balançando pra lá e pra cá, instável, caótico, quanto mais se bate nele, mais ele se mexe, cada vez que ele responde a um golpe seu, a vontade de projetar mais e mais energia aumenta.

Socar o ar não surte efeito, não há resistencia, sem força contrária ou um ente físico para receber essa energia seu soco terá como único efeito cansá-lo, desanimá-lo ou se você usar força demais, uma distensão muscular.

Comece com as coisas simples, perder uma chave, chutar o pé da mesa. Aí passe para as coisas médias, uma fechada no trânsito, não achar vaga em estacionamento, um arranhão no automóvel, um cliente (ou paciente!!!) que extrapola seus limites.

Isso não acontece da noite pro dia, mas cada vitória desde o não xingar o universo ao martelar o dedão ou culpar o motorista da frente ao perder o farol verde, deve contar como uma vitória enorme, porque você está vencendo a si mesmo.

Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível, você conhece essa frase, de Giovanni Battista di Pietro Bernardone, o São Francisco de Assis, agora vamos buscar a sua faixa preta zen.

O nível avançado dessa lição são as duras ofensas, as críticas injustificadas e por fim as agressões físicas.

O conceito é o mesmo, mas essas necessitam de um espaço enorme dentro de você para serem anuladas, lembre-se sempre do soco atravessando o ar e não encontrando nada, imagine um jogador de futebol que ao aplicar sua força máxima na bola, erra o chute e acerta o vazio, ele cai.

Pois é isso que deve acontecer com aqueles que o ofendem e criticam, eles devem cair no seu vazio, atingir o vácuo, a presença destes não reverbera em você, suas ações são desprovidas de significado e portanto não existem em seu mundo.

Quando alguém acorda atrasado de manhã, fica bravo, sai dirigindo de maneira irresponsável e fecha outro sujeito que a partir de então, fica transtornado, chega na empresa para trabalhar e desconta em sua secretária, que passa o dia ineiro de mal humor e sem render absolutamente nada no serviço, ela vai maltratar cada um com quem tratar nesse dia, ela vai bater a porta ao sair com tanta força que seu colega de trabalho que foi espezinhado o dia inteiro, tomará isso como uma ofensa que vai lhe despertar uma dose cavalar de amargura ao ir embora, correndo até o elevador da empresa ele vai esbarrar em quem ele acredita ser um zé mané qualquer, e tomando o ultimo lugar no elevador que seria do sujeito que ele empurrou, o encara e diz,: - O que é que foi ? Algum problema ? E o mesmo lhe responde: - Não senhor, o senhor está com mais pressa do que eu, faça uma boa viagem até sua casa, com um sorriso tão profundo, com um amor tão exuberante, com um vazio tão infinitamente preenchido, que o ofensor não vê outra saída, absolutamente desarmado e pasmo, só consegue responder com um sorriso amarelo de quem esta muito sem graça e agradecer o sortilégio. Quebre o cilco da raiva, deixe que ele se esgote no vazio.

O Vazio é infinito, deixe que tome conta de você e se torne infinito, torne o infinito tão grande a ponto de engolfar tudo e todos a sua volta, preencha esse vazio com coisas boas, mas não se entregue, ao socar o ar, o lutador fica com cada vez mais raiva, antes de se cansar ele bate com mais força, não permita que ele lhe encontre, pois não importa se é um apelido jocoso ou um soco, se uma força não encontrar nada em seu caminho, não surtirá efeito.

Isso não é fácil, mas nada do que vale realmente a pena, o é.

Faze o que tu queres

Há de ser tudo da lei.

Quacunc Facieri.



Fique com meu presente pra você.

Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta.

Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a idéia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados pelo fato de que o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: 'Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?'

'Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?' - perguntou o Samurai. 'A quem tentou entregá-lo' - respondeu um dos discípulos. 'O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos' - disse o mestre.

'Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir...'

Conto Zen.



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